terça-feira, 31 de julho de 2007

Heimweh

A um dia de completar os primeiros quatro meses, o primeiro terço desse longo ano, não poderia falar de outro assunto senão Heimweh. Essa é uma das minhas palavras preferidas, afinal saudade não tem equivalente em outro idioma. Heim (=casa)+ Weh (=dor). Não preciso escrever muito mais, julgo.
Tenho saudade do caos, dos cheiros, do último abraço na amiga querida, das atenciosidades (ultimas?) de quem eu quero tanto bem, do colo da Vopa (linda!), até do arroz e feijão com batatas fritas eu sinto falta, que aqui em casa não tem o mesmo gosto.
Enfim, eu estou pura nostalgia... Não dá pra dizer que aqui não é também a minha casa, mas a idéia de nacionalidade, inventada, é mais que romantismo. Aqui eu aprendo o que é (para mim) ser brasileira ao aprender o que é ser uma jovem brasileira em Berlim.
Não tenho vontade de escrever muito, estou triste mesmo. Eu me pergunto quanto das relações será reciclável, quanto do movimento da vida aqui vai alcançar o acontecer daí, e também quanto vai ficar desse castelo desmontável que eu construo diariamente. Essas perguntas são inúteis, eu sei, e deveriam se referir mais ao como do que ao quanto, mas não posso evitar fazê-las. Votos de que a distancia não me cegue e que o que fica, carinhos, boas lembranças, sempre me sigam.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Denkmal

A tradução literal de Denkmal (Denk - pense + mal - partícula apaziguadora do verbo imperativo) seria algo como "pense nisso". Essa palavra, que equivale ao nosso termo "monumento", é intrínseca ao cotidiano de Berlim.
No final de semana passado viajei para a Cracóvia e tive a oportunidade de visitar o campo de concentração e de extermínio de Auschwitz. Qualquer coisa que eu escrevesse aqui não encerraria as sensações dessa "visita". Mas de fato ela ampliou minha limitada visão a respeito da relação dos alemães com esse período obscuro de sua historia.
Cemitérios, museus, e monumentos aos judeus mortos na II Guerra são quase incontáveis na cidade de Berlim, pedindo uma reflexão permanente sobre o ocorrido.
Uma das iniciativas supostamente menos grandiosas, mais exatamente a que mais me emociona, é a da colocação de ladrilhos de ouro (bem, um material dourado) em frente a cada edifício de onde judeus foram arrancados de suas casas. Cada um desses ladrilhos possui o nome, a data de nascimento e a data e o local do falecimento da pessoa em questão.
Depois do cheiro de morte sentido, das identidades dissolvidas, dessa espera angustiada vivida por tantas pessoas, judeus, homossexuais, e outros considerados pelo Estado nazista uma ameaça a Alemanha, nenhum monumento de arquitetura grandiosa seria capaz de recuperar de maneira tão singela, mas nem por isso menos forte, essas pessoas que nunca serão esquecidas.
E é isso que fica do desconforto com esse passado que Berlim não esconde, essas trajetorias sempre únicas e que desmentem qualquer ideia possível de raça cravada no corpo das vitimas desse genocídio.

terça-feira, 17 de julho de 2007

O declínio do homem público

Não, não me refiro ao livro do Senett, que por sinal nunca passou pelas minhas mãos. Mas o título me vem quando penso nas razões de, apesar de longe das pessoas queridas, sentir-me tão a vontade aqui em Berlim.

Tenho impressão de que um dos motivos do meu carinho pela cidade, embora carinho não precise de motivos para ser, é o exercício do que, a meu ver, seria um dos possíveis conceitos de homem público.

Talvez pelo fato de durante seu deprimido inverno Berlim praticamente hibernar, seu verão, ensolarado até as 22h, é cultuado na cerveja com os amigos em um dos muitos parques e praças, no banho desnudo em um de seus diversos lagos, na leitura de um livro a beira do Spree ou em um de seus tantos festivais.

Aqui não tem essa história de que parque é bom, mas é muito misturado. Sim, há tensões, abarcadas com toda sutileza da tolerância com os migrantes, por exemplo. Mas ainda assim, os espaços públicos tem uma vida demasiado efervescente, e eu me pergunto se não vivi isso na minha cidade natal, morando há poucos quarteirões de um de seus mais bonitos parques, por medo, preguiça, ou lá o que.

De fato, é uma delicia viver essa segurança de ir e vir como se fosse algo dado, de nadar em um lago a três estações da faculdade em um entardecer no começo da semana ou tomar uma cerveja em um jardim no meio da quarta-feira. A importância do simples, como se fosse algo comum.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Sobre (/sob) duas rodas

João Ubaldo Ribeiro contou, numa das suas risonhas crônicas de Um Brasileiro em Berlim, que é mais fácil ser atropelado por uma bicicleta do que por um carro nesta cidade. Segundo minhas sofisticadas estatísticas, essa afirmação está correta. Em três meses fui duas vezes atingida por uma magrela (nada grave!), e ouvi alguns belos xingamentos que, embora incompreensíveis, têm um efeito fantástico de me fazer me desculpar ainda que eu tenha razão.
Aborrecida com os atropelamentos, resolvi não me fazer mais de vitima e, depois de uma vasta experiência de domingos no parque, assumi o outro lado da calçada. Depois de ser sutilmente pressionada pelos mais diferentes argumentos ("o trem fica fedido no verão", "com uma bicicleta você realmente vai conhecer a cidade", "faz parte da experiência berlinense"), parti em uma tarde de sábado para um passeio pelos mercados de pulgas.
Assim, muitos calos depois, encontrei uma bicicleta colorida, com sino (lindo!) de flores, vendida a preço de banana (no Brasil, aqui 1 kg delas custa 2 euros) por um camarada um tanto esquisito (um tipo saído de Um drink no inferno).
Alegre com a minha nova aquisição europeia, soubera eu que esse era apenas o primeiro episódio de uma longa, longa narrativa... Sim, eu sou uma ciclista inexperiente. Sim, eu não pedi para testar a bici. Sim, o banco estava alto demais para mim... E lá se vão quase duas semanas de falta de vocabulário para aquela peça, o banco, o ajuste, o... em mecânicos do meu bairro, que não davam jeito na pequena.
Verdadeira alegria, quando quase sem esperança um deles a consertou, e eu passei a ser uma "autêntica" estudante berlinense, arrumando as mais diversas desculpas para utilizá-la, e tremendo de medo de encontrar sua antiga dona. Sim, que inocência achar que a bicicleta era do camarada, afinal, um individuo que dirigiria uma Harley não dirigiria uma bici com sininho florido, não?
....
poff!!!
- Oh Gott! (Oh Deus - disse uma senhora turca)
- Aua... Kein Problem, ich bin OK. Nein, wirkich! Aua... (Ai, esta tudo bem, aiai - disse eu, arrebentada)
- Soll ich ein Krankenwage anrufen? (Devo chamar uma ambulância? - caçoou um rapaz alemão que atravessava a rua)
E a pobrezinha (da bicicleta, não da tonta que vos escreve) permanece desde então solitária no jardim, sem mais passeios alvoroçados no meio da tarde...

terça-feira, 3 de julho de 2007

Drama e amores

Aristóteles, teorizando a tragédia grega, definiu dois conceitos centrais para o estudo do gênero teatral. A mimese, imitação que geraria no publico identificação com as vontades humanas do herói esmagadas pelo destino inexorável, e a catarse, efeito moral (mais pra orgasmo do que pra noção católica do termo) capaz de aliviar esse sentimento.
Brecht, séculos e séculos depois, no contexto berlinense do céu dividido, propôs um teatro não-aristotélico, épico. A inserção do narrador, gerando descontinuidades na estoria contada, provocaria um estranhamento (Verfremdungseffekt) no publico, capaz então de construir reflexões sobre a trama ao invés de assisti-la passivamente.
Teorias a parte, ando me perguntando como seria enxergar os relacionamentos (sim, estou falando da vida amorosa, sexual, ambas, ou uma de cada vez) com um binóculo, no qual uma das lentes tivesse superpoderes aristotélicos e a outra brechtinianos.
Para mim, um relacionamento aristotélico seria das intensidades de um tango argentino, e um relacionamento brechtiniano das quebras de um jazz.
Na cerveja com uma amiga, somos aristotélicas. Tomamos as dores, damos uma bela gozada com aquela novidade e lacrimejamos ausências. Aqui cabem justificativas: "Estava escrito nas estrelas, baby".
Depois de chegar em casa e tirar os sapatos, aquela escutada estratégica da secretaria eletronica(vazia, sempre sempre) nos leva ter uma conversa brechtiniana com o travesseiro: Eu sou uma mulher inteira, por que tenho que cair no estereotipo da tia solteirona fragilizada emocionalmente? Maldito machismo internalizado! (...) Ele podia ligar, sinto saudade, afinal. E cheias do distanciamento digno das mais caras sessões de análise, transbordadas da impossibilidade comunicacional das Spachstücke, destrinchamos por horas o desconforto com uma solidão que racionalmente é aceita como "normal".
Aqui, onde o Arco Íris acaba, fazendo visitas constantes ao Berliner Ensemble, e começando a ler, devagarinho, Brecht no original, penso em como esse modelo sem heróis cai bem. Mas nesse caso a confusão me toma... Não quero lucidez no amor. Quero amor mitificado.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Das taxas

O que são estereótipos? quem diga que essa imagem surge quando a integração do eu é ameaçada. Pois eu tenho um exemplo altamente concreto, contado, de que essa é uma explicação para lá de plausível para esse conceito.
Sou uma estudante brasileira em Berlim. O que significa, entre outros detalhes, lidar diariamente com a famigerada burocracia alemã. Logo antes de trazer meus cadernos e vestidos para essa encantadora cidade, ouvi mais de um ente querido dizer: Tenha cuidado com os seus documentos! Anote tudo o que gastar! Peça uma cópia de tudo o que assinar! - entre outras recomendações montadas para um posterior eu avisei.
Ameaçada pela certeza acerca da postura bastante organizada das insituições de Ensino alemãs, tentei seguir os conselhos acima a rabiscos. Pois não é que, o aprendizado da pedra (papel, metal), da compreensão berlinense pós-extinção da RDA sobre taxas, que torna seu espírito tão idiossincrático quanto o Mc' Donalds da rua Karl Marx perto da minha casa, incita uma cronópia a ser fama:
- taxa para "eu faço samba e amor até mais tarde, e tenho muito sono de manhã": 40 euros - o equivalente a passagens de ida e volta para Dublin ( obviamente uma taxa para cancelar o vôo de volta ou trocar a data do vôo de ida = 75 euros)
- taxa para relativização de tempo e espaço: 6 euros - ou o equivalente a algumas horas de atraso na entrega de três livros em uma biblioteca da Freie Universität (para fazer copias dos trechos lidos teria gasto, claro, menos da metade)
- taxa para bolsa à la cartola de mágico: 7 euros - um novo cartão de copiadora (sendo que, ahá!, ele estava naquele bolso escondido, atrás do, em baixo do...)
...tlin tlin tlin (a caixa vai registrando...)